14/07/2008

Não há crise alimentar na mesa do G8

Como os jornais de todo o mundo anunciaram esta semana, os dirigentes do G8 tiveram “em cima da mesa” a crise alimentar e a fome no mundo, disparada pelo preço das matérias-primas e do petróleo.
Os assuntos eram graves mas, como já tinha acontecido em anos anteriores, toda a gente sabia, a começar por quem lá estava sentado ‘à mesa’, nada de transcendental poderia sair daquela reunião, como já nada de transcendental tinha saído das anteriores.
Começa por o G8 ser um grupo de onde estão excluídos países como o Brasil ou os países produtores de petróleo, à margem dos quais as conversas caem em saco roto, pelo que as reuniões do G8, pela sua ineficácia, já só servem para os activistas de rua se irritarem com a reunião dos ricos e chamarem a atenção para as misérias (que os ricos alegam ir ajudar a resolver) cá fora.
Só que desta vez, aconteceu a caricatura. Na mesa do G8, ao jantar, foi decidido servir 24 pratos - repete-se, vinte e quatro - refeições aos mais ricos do mundo.
Uma cimeira que não serve para nada, que nada decide com substância, que diz avançar com uns dinheiros para ajudar a combater a crise alimentar, mas escapa à discussão dos biocombustíveis e - ridículo dos ridículos - atira para 2050 o compromisso para diminuir as emissões de dióxido de carbono, serviu para caricaturar da melhor maneira possível a dicotomia países ricos - países pobres.
Os países pobres continuam a fazer contas à vida, com as barrigas a ‘darem horas’. Os ricos jantaram, claro. O facto de, despudoradamente, o fazerem ao estilo da orgia do império romano diz muito mais sobre os riscos, humanitários e políticos, da crise alimentar do que qualquer outro símbolo dos tempos recentes. O jantar do G8 foi o retrato de um mundo bipolar, onde pontifica uma Europa a cujas costas chegam todas as semanas cadáveres de imigrantes ilegais.
Há uns séculos atrás uma conhecida rainha francesa desabafava: “Se não têm pão, dêem-lhes brioches”, sendo conhecido que a frase do século XVIII não acabou lá muito bem. Para a decapitada rainha, entenda-se.

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